O mesmo de sempre

O que é conhecer o amor verdadeiro? O que é se dilatar em emoções, imaginando a pessoa desejada em seus braços todos os dias? Eu me apaixonei. Noite passada. Luz vermelha ou azul, não sei. Mas me apaixonei. Me dilatei. Me desdobrei e sorri. Chorei, não queria mais. Essa agonia. essa angústia mata. E renova. O que são pontos finais? São determináveis à custa de nossa vida e imaginação. Queria dar ponto final ao desejo. Ele só aumentou. Querida dar ponto final à vida. Ela só cresceu. Não sei mais quem eu sou. Só sei dessa incerteza que me divide e corta, minhas lágrimas, cadê minhas lágrimas? Não sei. Me afoguei nelas, talvez.

Paula Queiroz

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Breve narrativa sobre os seres utilizadores do polegar opositor

O que mais me irrita na rotina é o barulho produzido pelas mãos que contabilizam quantas folhas existem para enumerar os procedimentos inúteis que não farão nenhuma diferença no mundo.
Nosso trabalho é uma bolha, mas não de sabão. É uma bolha de vidro, é uma bolha de mármore, impenetrável e visível para a sociedade pensar que nosso órgão faz algo de relevante.
O que é ser relevante?
Já fico doente. Já estou doente desde o momento em que saí do útero da minha mãe. Em minha vida medíocre, meus sonhos são compartilhados por inúmeras almas tão inúteis quanto a minha; queremos conquistar o mundo, grande merda.
Reclamamos que queremos dinheiro para viajar, queremos tempo para fazer as coisas “incríveis que nos esperam”… pensamos ser únicos, mas somos a mesma bosta gerada por sêmens e óvulos. Só isso. Geração mimada por séries de TV. Por filmes. Por propagandas que dizem o quão vamos “fazer a diferença.”
Diferença pra quê, caralho? Nosso ninho de convivência é tão insólito quanto às propagandas de absorventes íntimos. Eu, você e o mundo estamos cagando e comendo; achamos ser especiais, mas só trazemos caspa, piolho e doença pro universo.
Somos rinocerontes. Há exceções que saltam dessa piscina de animais grotescos, são minoria.
Ingerimos sal, gordura e açúcar com igual maestria quando se ingere veneno. Somos espertos o suficiente para engolirmos merda a fim de nos convencer que nosso intestino trabalha bem ao cagar a mesma imundice que devoramos.
Nós matamos nossa potencialidade de sermos felizes no momento em que nascemos; o mundo não dá boas vindas aos sonhadores. Porém, ele nos alimenta com sonhos de comerciais, para nos frustrarmos e esquecermos de viver, consumindo nossa presença no universo com ilusões perdidas a cada passo que damos nesses asfaltos produzidos por empresas e por terras ainda não colonizadas.
Somos colonizados pela nossa própria destruição.

sem título

Tenho algo a dizer a mim mesma

Uma febre constante de dor e fracasso

A mente, o fulgor e o calor

Do que não foi mencionado na história

Meu lápis percorre a folha amarelada

E minha inspiração vem do oco

O absurdo de se viver enclausurada

No meio de imagens libertas

O grunhido de Tom Waits

O cheiro da chuva que não vem

E eu falando muda:

“Mude, mude, mude..!”

Paula Queiroz

 

Obs: feito na terra do queijo e do ar fresco.

Desopressão

Cálido.
É o nosso tempo. Entre livros, entre bebidas…fazemos o impossível.
Não nos amamos. Somos feitos de volúpia. O amor não existe para nós, existe culpa.
E se nos amamos, nenhum se pronuncia. E se existe amor, fingimos sua inexistência.
A hesitação no olhar… quantos relógios já se quebraram ao contar as nossas respirações?
Foi-se um, dois ponteiros…não importa. A cada ano-luz, uma esperança.
Ignoro meu demônio e me entrego ao seu. Mesmo não sendo o que penso ser, o ímpeto consome nossos encontros.
Fazemos o vermelho no subentendido. Nada é explícito, mesmo tendo suas mãos em meus seios. Como saímos para a vida depois de tantos toques inesperados?
Não sei. Não há resposta. A coisa que se diz inocente se transforma em serpente após três goles.
E as estradas são percorridas, os sonhos são desmascarados e estamos ainda no mesmo estado: entre um tiro esperado ou uma vida indesejada.
Somos intermediários de uma evolução imprecisa. O relacionamento se constrói e se destrói simultaneamente, espaço e tempo difusos, expectativas consolidadas e acabadas.
Se há o belo em nós, há o feio também. O efeito sem causa, a ação sem reação, a queda sem morte. E se há lágrimas, elas se modificam em gozo. Se há carinho, ele se modifica em violência. Se há sentimentalismo, ele se modifica em afastamento.
Assim sou eu, assim é você.
Resta um, restam dois.
Fogo.

 

Paula Queiroz

recusa 

não quero despedidas. cansei de dar adeus ao acaso que se vai.
o que me deste foi intenso

o que não quero é que tudo isso desapareça pela distância de vários quilômetros

não nasci pra ser nômade e nem incerta

mas a possibilidade de acabamento de algo que surgiu por sorte é destruidor

meu pensamento não aguenta, nem as veias, nem as artérias, nem o sistema nervoso

dilate-se dentro de mim antes de ir

componha alguma trilha sonora para eu esquecer, aliviar, morrer

pois não eclodi pra dar tchau.

 

Paula Queiroz

exposição

eu não sou bonita.

não sou latente com a minha estética.

apenas apareço nos lugares sem chamar atenção pela beleza

e sim pela falta de brilho no olhar.  pela feiura.

eu não sou bonita

compulso um sonho sórdido nas veias

de ser e não será

atravesso, ando, cruzo e só ouço pés e saltos.

claramente, os pés inchados

fervorosamente, me despir é acaso

pois não quero mostrar

o que falta em mim.

 

Paula Queiroz